O que os debates sobre clima, meio ambiente e transição energética têm a ver com o vinho? A resposta é simples. Quando o clima muda, o vinho também muda. E muda muito. Ondas de calor, geadas tardias, chuvas fora de época, secas prolongadas, granizo e incêndios afetam diretamente a videira e transformam profundamente os estilos de vinhos. A maturação acelera, o teor alcoólico sobe, a acidez cai, as identidades regionais se deslocam e, em alguns casos, regiões vinícolas inteiras precisam se reinventar.
Para os mais céticos, basta lembrar que regiões antes frias, como o Reino Unido, a Suécia, a Noruega e o norte do Canadá, começam a produzir vinhos de qualidade. Mas não será o avanço do cultivo nessas áreas que compensará o impacto global. Em 2024, vivemos o segundo ano consecutivo de menor produção mundial desde 1961. Foram 226 milhões de hectolitros, uma queda de 5% em relação a 2023. Ou seja, quando o mundo se reúne para discutir o clima, o vinho também pode estar no centro do debate.
Não basta ser orgânico
Na cabeça do consumidor médio, a forma de “ajudar” o planeta no universo do vinho costuma começar pela escolha de um rótulo orgânico. Mas você sabe, de fato, o que significa um vinho orgânico? E, mais importante, será que ele é sempre a melhor solução?
A ascensão da consciência ambiental fez com que termos como orgânico, biodinâmico e natural ganhassem mais espaço. Só que, como quase tudo no mundo do vinho, as respostas são mais complexas do que parecem. O vinho orgânico é produzido sem pesticidas, herbicidas ou fertilizantes sintéticos, o que representa um avanço valioso em muitas regiões. No entanto, em áreas muito úmidas, controlar doenças sem o uso de produtos químicos exige intervenções mais intensas e um uso consideravelmente maior de cobre. O cobre, embora natural, é tóxico para o solo a longo prazo. Nesse ponto, o discurso de preservação frequentemente se distancia da prática.
Biodinâmicos e naturais
O biodinâmico, frequentemente confundido com o orgânico, segue a filosofia de Rudolf Steiner e vê os vinhedos como organismos vivos. Utiliza preparados naturais, ciclos lunares e práticas regenerativas. É um método adotado por grandes ícones mundiais, como Romanée-Conti e Cristal (Louis Roederer). Embora mais holístico, também desperta controvérsias — e isso inclui o fato de não necessariamente reduzir o impacto ambiental, já que exige mais mão de obra, mais intervenções manuais e, muitas vezes, uma presença muito maior no vinhedo ao longo de todo o ciclo.
Já o vinho natural é aquele de mínima intervenção. Fermenta com leveduras indígenas, recebe pouco ou nenhum sulfito e adota uma vinificação mais tradicional. O problema é a ausência de um padrão internacional. A França avançou com o selo Vin Méthode Nature, mas, no restante do mundo, ainda há grande variabilidade na quali66 67 dade, na segurança e na consistência. Há vinhos naturais extraordinários e outros bastante problemáticos e, sem padrão, fica difícil garantir que a produção na viticultura gere menos impacto no meio ambiente.
É aqui que entra uma pergunta incômoda, porém necessária: os vinhos orgânicos são realmente sustentáveis? O setor, como um todo, precisa abandonar a visão romântica e adotar uma abordagem crítica. Adrian Bridge, CEO da Taylor’s e uma das vozes mais técnicas sobre clima no vinho, costuma repetir que a pegada de carbono do orgânico pode ser significativamente maior. Quando a produtividade cai, a conta ambiental sobe. Mais área, mais energia, mais transporte.
Na Nova Zelândia, o enólogo Dave Sutton, da Te Kano, retirou parte de seu vinhedo da certificação orgânica porque o solo estava se degradando. Estudos internacionais alertam para os impactos cumulativos do cobre na água e na saúde dos trabalhadores. E muitos produtores europeus admitem que, em anos desafiadores, o manejo orgânico pode ser ambientalmente mais prejudicial do que o manejo integrado bem executado.
Um conjunto de decisões técnicas
Sustentabilidade, portanto, não é um selo único. É um conjunto de decisões técnicas. Mas há consenso na comunidade científica e climática do vinho: a maior revolução do setor não está apenas no vinhedo. Está na garrafa. Isso mesmo. Um dos componentes mais poluentes da cadeia do vinho não é o cultivo, e sim o peso da garrafa. Aquelas garrafas pesadas que muitos consumidores ainda associam à qualidade são, na verdade, um enorme obstáculo ambiental. Produzi-las consome mais energia, transportá-las requer mais combustível e, ao longo de toda a cadeia, elas geram mais emissões.
A boa notícia é que várias vinícolas sérias já estão migrando para garrafas leves, com peso entre 390 e 420 gramas. Outras experimentam alumínio reciclável, bag-in-box de alta qualidade, engarrafamento no local, garrafas reutilizáveis e diversas estratégias inteligentes para reduzir o impacto sem comprometer a qualidade do vinho. Se você ainda acredita que garrafa pesada significa vinho superior, saiba que esse é um dos mitos que mais custam ao planeta.
A escolha do consumidor
E o que podemos fazer como consumidores? Antes de tudo, entender que sustentabilidade não é binária. O vinho orgânico pode ser uma excelente escolha, dependendo da região, do clima e da filosofia do produtor, mas está longe de ser a única opção. Podemos optar por empresas que medem impacto, que praticam regeneração do solo, que investem em energia renovável e que repensam sua logística. Podemos considerar o peso da garrafa, o tipo de embalagem, as distâncias percorridas. E, principalmente, podemos fazer perguntas. Consumidores que questionam transformam indústrias inteiras.
Se você deseja estar mais próximo das discussões estruturais sobre sustentabilidade no setor do vinho, vale conhecer o Porto Protocol. Ainda pouco conhecido pelo grande público, ele é uma referência global no trade. Criado a partir das conferências Climate Change Leadership, o Porto Protocol tornou-se uma das ONGs mais relevantes em clima no universo do vinho. Sua missão é clara: compartilhar experiências reais, medir impacto, aprender de forma colaborativa e acelerar a transição climática da cadeia. Empresas, produtores e instituições assinam uma Carta de Princípios que envolve compromissos concretos de mitigação e adaptação. Não se trata de propaganda, mas de uma plataforma de cooperação baseada em evidências, dados e ações verificáveis.
E, no fundo, tudo isso importa porque nos ajuda a entender uma verdade simples: sustentabilidade no vinho não é moda, não é etiqueta e não é discurso. É responsabilidade.
Se você chegou até aqui, já fiz metade do meu trabalho. Se, ao terminar este texto, você entende que um bom vinho não tem absolutamente nenhuma relação com garrafa pesada, demos um passo importante. A sustentabilidade do vinho é complexa, repleta de nuances e oportunidades. É a chance de unir tradição, inovação e consciência. O planeta agradece. As próximas gerações agradecem. E o vinho, claro, agradece também.