A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para esta quarta-feira, 18 de março, tornou-se imprevisível. Antes, o caminho parecia estar pavimentado para uma redução robusta da taxa de juros Selic, segundo indicação do próprio órgão em sua reunião anterior. Mas a guerra no Oriente Médio empurrou o preço do barril de petróleo para a marca dos US$ 100, criou pressões inflacionárias e tornou necessário um reajuste nos cenários projetados para a economia brasileira.
O mercado está dividido. Enquanto um lado se preocupa com a pressão inflacionária imediata do petróleo, outro olha para as dificuldades (como desaceleração da atividade econômica e aumento na inadimplência) causadas por juros tão altos, há tanto tempo. A incerteza se reflete diretamente na volatilidade dos contratos de juros futuros, com agentes recalibrando posições a cada nova notícia vinda do front de batalha no Oriente Médio.
O freio geopolítico
Nesta segunda, 16, Valor Econômico e Valor Investe trazem reportagens que convergem em um ponto: a guerra é um freio para as pretensões de queda mais acentuada da Selic. Enquanto o cenário doméstico apresentava sinais que permitiriam um corte de 0,50 ponto percentual, o risco inflacionário global vindo da energia forçou grandes instituições financeiras consultadas pelos veículos a recalibrarem suas apostas.
Segundo o levantamento do Valor Investe, metade do mercado agora espera uma redução mais tímida, de apenas 0,25 ponto. Bancos como Goldman Sachs e BNP Paribas lideraram esse movimento de cautela, citando que a incerteza externa exige uma postura mais defensiva do Banco Central brasileiro.
O argumento pelo corte de 0,50
Apesar das circunstâncias externas, há vozes que defendem a manutenção do ritmo originalmente esperado. Em sua coluna no Valor Econômico, o economista Sérgio Lamucci argumenta que, mesmo com o petróleo em patamares elevados, a taxa de juros real no Brasil permanece excessivamente alta. Com a Selic em 15% ao ano, o juro real (descontada a inflação) gira em torno de 10%, um nível considerado restritivo o suficiente para permitir um corte de 0,50 ponto sem comprometer a meta de inflação.
Para Lamucci, o Banco Central poderia optar pelo corte maior, desde que acompanhado de uma comunicação extremamente cautelosa, sinalizando que os passos futuros dependerão da estabilização dos preços das commodities.
Impactos políticos
Uma queda de 0,50 ponto percentual seria lida como uma vitória direta do Palácio do Planalto. Esse corte indicaria que o BC considera o juro real excessivamente restritivo, priorizando a atividade econômica mesmo com o petróleo em alta. Isso barateia o crédito e estimula o consumo. Em ano de eleições, é o cenário dos sonhos para o governo, pois fortalece a narrativa de que a economia está “destravando”.
A redução menor, de 0,25 p.p., é o cenário considerado mais provável atualmente: 50,3% das apostas do “Termômetro do Copom”, mantido pelo Valor Investe, vão nessa direção. Seria um reconhecimento da necessidade de queda, mas também um sinal de cautela. Do ponto de vista político, é um meio-termo amargo para o governo, que pode retomar as críticas à “timidez” do BC.
Uma fatia não desprezível do mercado – 30% – acredita que o Copom pode simplesmente desistir de fazer cortes e manter a taxa Selic em 15%. Nesse caso, o BC mostraria estar completamente focado na ancoragem de expectativas e na contenção da inflação. Seria um banho de água fria para o governo Lula – e certamente haveria petistas dizendo em público que a medida é uma “sabotagem” contra o crescimento.