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CULTURA

‘Homo economicus’ de Adam Smith faz 250 anos

O filósofo escocês pôs o indivíduo racional, movido por interesses próprios, no centro do pensamento econômico – e assim criou uma nova disciplina

Há 12 dias • por Carlos Graieb
‘Homo economicus’ de Adam Smith faz 250 anos
O filósofo escocês Adam Smith, cuja obra máxima completa 250 anos: vida pacata, ideias poderosas. Foto: Ilustração/Wikimedia Commons
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É um destino comum das obras clássicas que elas acabem ensejando interpretações disparatadas: cada corrente de pensamento busca arregimentar os “grandes gênios” para a sua batalha ideológica. No caso de Adam Smith, cujo monumental Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações – ou, simplesmente, A Riqueza das Nações – completa 250 anos neste mês de março de 2026, o esforço tem sido o de transformá-lo, de “pai do capitalismo”, em uma espécie de social-democrata. Isso permite acusar liberais “sem coração”, na linha de Milton Friedman, de distorcer o pensamento de um de seus próprios heróis.

Para sustentar essa visão, autores se valem de citações de Smith que, isoladas, parecem endossar preocupações sociais profundas. Frases como “Nenhuma sociedade na qual a maior parte dos membros é pobre e miserável pode ser florescente e feliz” e “Não é muito irracional que os ricos contribuam para a despesa pública, não apenas em proporção à sua receita, mas algo mais do que nessa proporção” são frequentemente evocadas. Para fazer justiça a Adam Smith, o melhor é mergulhar na obra e deixar de lado esse tipo de disputa com segundas intenções.

A Riqueza das Nações

A Riqueza das Nações resultou de um esforço magistral para observar e interpretar o comportamento de pessoas comuns e empreendedores em meio a duas revoluções: a do pensamento, impulsionada pelo Iluminismo, e a industrial, que começava a funcionar a pleno vapor (literal e metaforicamente) na Inglaterra do século 18.

Smith argumentou que, ao buscar seu próprio interesse, o indivíduo é “conduzido por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção”. Ou seja, o comportamento movido pelo interesse próprio, em um ambiente de livre concorrência e respeito às leis, resulta em benefícios gerais para a sociedade, como a produção de bens e serviços de qualidade a preços acessíveis.

Esse modelo do comportamento humano – o sujeito racional que faz escolhas movido pelo interesse próprio – forneceu as bases para que a economia se desenvolvesse como ciência nos últimos 250 anos. A ideia de que a busca individual por lucro poderia, paradoxalmente, levar à prosperidade coletiva, revolucionou o pensamento econômico e social, estabelecendo os pilares para a compreensão dos mercados e da alocação de recursos.

Mas esse paradigma e suas implicações econômicas passaram a ser desafiados nas últimas décadas. Dois vencedores do Prêmio Nobel de Economia, o americano Robert Shiller e o indiano Amartya Sen, exemplificam os questionamentos à visão do Homo economicus que se tornou dominante a partir da obra de Smith.

Os “espíritos animais” de Robert Shiller

Robert Shiller, conhecido por seus estudos sobre bolhas financeiras, é um dos principais nomes da economia comportamental. Suas pesquisas mostram que cálculos racionais não são os únicos fatores que influem nas ações econômicas. Impulsos inconscientes, percepções equivocadas e valores sociais também guiam as pessoas. Shiller recorre à expressão “espíritos animais”, tirada de outro célebre economista, o inglês John Maynard Keynes, para falar desses impulsos.

Sua obra explora as maneiras como incentivos e regulações podem servir de contrapeso às escolhas equivocadas que os indivíduos tendem a fazer, especialmente no campo das finanças, e podem levar a desastres como o grande colapso de 2008. Ele não é “contra Adam Smith”, pelo contrário: afirma que seus escritos captaram de maneira magistral o que acontece quando os seres humanos buscam satisfazer seus interesses econômicos com base em cálculos racionais. Mas Shiller demonstra que esse isso não resume toda a história.

A natureza humana em Amartya Sen

Amartya Sen, por sua vez, argumenta que A Riqueza das Nações precisa ser lida em conjunto com a outra obra-prima de Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, de 1759. Essa leitura conjunta demonstra que o filósofo escocês via o ser humano movido por mais do que o interesse próprio. A primeira (e longa) frase de Teoria dos Sentimentos Morais já traz a ideia de que a felicidade alheia pode ser “necessária” aos indivíduos, não importa “o quão egoístas eles sejam considerados”.

Um dos temas centrais do livro é aquilo que hoje chamamos de empatia (a palavra ainda não existia no século 18). Sen destaca outros tópicos explorados por Smith, especialmente seu conceito de “espectador imparcial” – a capacidade que cada um tem de observar a si próprio e aos outros de uma distância crítica. Esse conceito enseja discussões sobre justiça social que, sim, parecem alheias ao pensamento de Smith tal como usualmente ele é apresentado. Sen mostra que boa parte da teoria econômica contemporânea trabalha com uma caricatura que não faz justiça completa ao pensamento de Smith.

O perfil inusitado do gênio

Por trás de obras tão influentes, esperaríamos uma vida de grandes aventuras ou dramas pessoais. No entanto, o perfil de Adam Smith é, para dizer o mínimo, discreto. Nascido em 1723 em Kirkcaldy, na costa leste da Escócia, ele estudou filosofia moral em Glasgow, passou um período infeliz em Oxford e, posteriormente, estabeleceu-se em Edimburgo. Era solteiro e viveu com sua mãe durante a maior parte de sua vida adulta.

O fato de que um cigano o sequestrou aos três anos é a única anedota realmente animada sobre ele. Sua amizade com o filósofo David Hume é um dos poucos pontos de efervescência em uma biografia marcada pela erudição e pela introspecção. A falta de emoção em sua vida é, paradoxalmente, parte de sua modernidade: ele teve exatamente a carreira que um homem com seus dons teria hoje – palestras bem-recebidas sob o patrocínio de um mentor, ascensão a presidente de departamento em uma universidade de prestígio, uma passagem pelo governo e, finalmente, a capacidade de viver da publicação de livros. Até as vidas mais opacas podem ter repercussões que atravessam séculos.

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