A discussão sobre a redução da jornada de trabalho – como o fim da escala 6×1 – tem ganhado espaço no debate público brasileiro. Preocupações legítimas com qualidade de vida, saúde mental e bem-estar dos trabalhadores a impulsionam. Trata-se de um tema relevante e necessário. No entanto, para que essa conversa produza bons resultados, ela precisa ser acompanhada de evidências e de uma análise cuidadosa dos impactos econômicos envolvidos.
Uma nota técnica recém-lançada pelo Centro de Liderança Pública (CLP) com base em estudos recentes mostra que reduzir a jornada sem ajuste proporcional de salários eleva o custo do trabalho por hora, exigindo adaptações das empresas.
Em experiências internacionais, como a de Portugal, houve ganhos importantes de produtividade por hora trabalhada, resultado de menor fadiga e melhor organização do trabalho. Ainda assim, esses ganhos não foram suficientes para compensar integralmente o aumento do custo do trabalho. O país registrou queda de cerca de 1,7% no emprego e retração superior a 3% na produção das empresas afetadas.
Redução no PIB
No Brasil, simulações indicam que uma mudança semelhante poderia gerar impactos relevantes, especialmente no mercado formal. Setores como comércio, indústria, transporte e serviços seriam os mais afetados. As estimativas apontam para a possibilidade de perda de mais de 600 mil empregos formais e uma redução significativa da produção, com reflexos no crescimento econômico.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio. De acordo com a nota técnica do CLP, a redução da jornada poderia levar a uma queda de cerca de 2% na produção do setor formal, combinando menos horas trabalhadas e redução do emprego.
Mesmo considerando a presença da informalidade, o impacto agregado não seria desprezível: a estimativa é de uma redução de cerca de 0,7% no PIB total.
Considerando o PIB de 2025, isso significaria uma perda de cerca de R$ 88 bilhões, o que evidencia que decisões dessa natureza têm efeitos macroeconômicos relevantes e duradouros.
Políticas de produtividade
Isso não significa desqualificar o debate sobre a jornada. Ao contrário: significa qualificá-lo. A redução do tempo de trabalho pode ser parte de uma estratégia de desenvolvimento. Mas deve vir acompanhada de políticas claras de aumento de produtividade, investimento em tecnologia, melhoria da gestão e capacitação da força de trabalho. Países que avançaram nesse debate fizeram isso de forma gradual, testada e baseada em evidências.
O risco de tratar o tema apenas sob a ótica do bem-estar, sem considerar seus efeitos econômicos, é aprofundar problemas que o Brasil já enfrenta, como baixo crescimento da produtividade e informalidade elevada. O desafio, portanto, não é escolher entre qualidade de vida e crescimento, mas construir soluções que conciliem ambos.