Estudos de renomados consultores do Congresso indicam que, em 2027, 100% do orçamento primário do governo federal serão constituídos de gastos obrigatórios. Não sobrará um centavo para custear dívidas do governo, atividades de Legislativo, Executivo e Judiciário, nem para financiar programas relevantes nas áreas de ciência, tecnologia, infraestrutura, defesa ou turismo, entre outras.
Claro, o Brasil não corre o risco de um shut down do setor público, porque certamente enfrentará essa catástrofe com o abandono total ou parcial do arcabouço fiscal, que já está claramente insustentável. Nesse caso, em algum momento um gatilho vai disparar uma grande crise fiscal que pode desdobrar-se em crise financeira.
Remédios conhecidos
Medidas para evitar ou enfrentar essa situação são amplamente conhecidas do governo e dos especialistas. Destacam-se uma nova reforma da previdência, com eliminação de diferenças de tratamento hoje ainda prevalecentes. Por exemplo, não há por que tratar diferentemente o setor urbano e rural. No setor rural, a aposentadoria é de 60 anos parra homens e 55 pra mulheres. No setor urbano, 65 e 62 anos, respectivamente. Será preciso também rever as regras de aposentadorias e pensões militares, aproximando-as o máximo possível das civis.
Além disso, é preciso desvincular salário mínimo de aposentadoria. Isso só existe no Brasil. Em todo o mundo, garante-se a preservação do valor real dos benefícios e não aumentos reais. Isso é uma esquisitice brasileira, e é tão esquisito que há sindicatos de aposentados e idosos. Vale lembrar que os sindicatos são uma instituição criada no século XIX, na Inglaterra, para conferir aos trabalhadores poder de barganha em salários e benefícios. Será que vamos ver uma greve de aposentados e pensionistas no Brasil?
Fim das vinculações
Nessa mesma linha de mudanças, é preciso eliminar também outra esquisitice brasileira: a vinculação da arrecadação de impostos a gastos de saúde e educação. Desde a Babilônia, onde surgiu o orçamento, a peça orçamentária é feita anualmente, quando são definidas as prioridades do país. O Brasil inventou a prioridade permanente. Quem dirá que daqui a um século a prioridade será a educação? O pior é que essas medidas contam com amplo apoio do Congresso, que assim renuncia ao seu papel mais nobre, que é o de aprovar anualmente o orçamento. Este ano, 94% das despesas primárias são de natureza obrigatória. Entre os países com os quais nos comparamos, essa mesma proporção é de 60%.
É preciso também proibir, de maneira permanente, o uso de artifícios para driblar as regras do orçamento, o que tem sido comum tanto no Executivo quanto no Legislativo. Por exemplo, propostas do atual governo estão sendo financiadas com o fundo social do pré-sal, o que, além de lamentável, viola uma regra fundamental da teoria econômica: a de que arrecadação sobre recursos naturais deve pertencer a gerações futuras. O exemplo mais conhecido é o da Noruega, onde o governo pode sacar de um fundo soberano apenas os rendimentos das aplicações. No Brasil, por essa loucura, estamos roubando o futuro.
Programa eleitoral
Haveria outras ideias, mas essas são as fundamentais. Resta saber o que acontecerá a partir de 2027. Se Lula for reeleito, a chance de reformas pode ser mínima, pois ele e o PT são contrários às propostas aqui mencionadas. Se for um candidato da direita, depende de como ele tenha se preparado para governar, pois a crise vai cair o colo dele. Será necessário contar, previamente às eleições, com um programa de reforma que contenha apenas ideias genéricas, como é comum no Brasil.
É preciso preparar um bom diagnóstico, com a participação dos melhores especialistas e, além disso, aprontar documentos legislativos – projetos de lei ordinária e complementares e de reformas constitucionais. Porque o futuro presidente não terá tempo de pensar. A vantagem dessas providências é que elas permitem ao novo governo começar voando. A experiência mostra que reformas dessa magnitude se tornam mais viáveis em momentos de crise, que contribuem para a formação do senso de urgência da sociedade e possibilitam o apoio a medidas duras e politicamente difíceis, que seriam rejeitadas em outras circunstâncias. Ainda é possível livrar o país da catástrofe.