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ECONOMIA

Guerra no Irã traz mais riscos à economia global que o choque do petróleo de 1973

Enquanto a crise anterior foi motivada por decisões políticas de redução de oferta, cenário atual se define pela destruição física de infraestruturas

Há 12 dias • por Da Redação
Guerra no Irã traz mais riscos à economia global que o choque do petróleo de 1973
Instalações de petróleo no Irã: sob ataque. Foto: Reprodução/War on the Rocks
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A eclosão de um conflito em larga escala envolvendo o Irã não representa apenas mais uma instabilidade no Oriente Médio. Trata-se do maior choque de oferta de energia da história recente, superando em gravidade e alcance o emblemático embargo da OPEP em 1973.

Enquanto a crise da década de 1970 foi motivada por decisões políticas de redução de oferta, tomadas pelos próprios países produtores de petróleo, o cenário atual se define pela destruição física de infraestruturas.

O fechamento do Estreito de Ormuz interrompeu o fluxo de aproximadamente 15% do suprimento global de petróleo e 20% do gás natural liquefeito, o que dobra o impacto dos distúrbios enfrentados há cinquenta anos.

Além disso, a guerra atual resultou em danos severos a refinarias, portos e aeroportos em todo o Golfo Pérsico, garantindo que, ao contrário dos choques anteriores, a capacidade produtiva não possa ser restaurada rapidamente após um cessar-fogo. A Ilha de Kharg, que concentra boa parte da infraestrutura de exportação de petróleo (foto), foi atingida por pesados bombardeios nos últimos dias.

Condições desiguais

Os países ao redor do mundo vão enfrentar essas novas circunstâncias em condições desiguais.

Os Estados Unidos têm hoje uma produção de petróleo que não possuíam em 1973, graças à revolução do fracking (a extração de combustíveis pelo fracionamento hidráulico de rochas de xisto), que fez deles um exportador líquido de energia.

Em contrapartida, a Europa e a Ásia enfrentam um cenário sombrio. O continente europeu, já fragilizado pelo esforço para reduzir sua dependência do gás russo, vê-se sem alternativas imediatas, enquanto potências asiáticas como Japão e Coreia do Sul sofrem quedas drásticas em suas moedas e mercados, dada a dependência de mais de 80% das importações de energia vindas justamente da zona de conflito.

Essa assimetria pode levar a uma reconfiguração das estratégias de segurança nacional e das alianças comerciais.

Danos

O impacto da guerra transcende o setor de combustíveis e atinge as bases da produção global. A disparada no custo dos fertilizantes, derivados do gás natural, coloca em risco a segurança alimentar em escala mundial. Simultaneamente, a escassez de insumos como o hélio paralisa a fabricação de semicondutores, enquanto o aumento nos preços de minerais críticos atrasa a transição energética global.

Outro fator inédito é a erosão do status de “porto seguro” das monarquias do Golfo. Com ataques diretos a centros financeiros como Dubai e Riade, o capital estrangeiro tende a fluir em menor volume para uma região que vem sendo, há décadas, sinônimo de estabilidade financeira e investimento em infraestrutura de luxo e tecnologia.

Riscos para o Brasil

A crise impõe grandes riscos ao Brasil. Embora seja um grande produtor de óleo bruto, o país precisa importar derivados essenciais, com destaque para o diesel. Com o preço do barril atingindo níveis recorde, a Petrobras enfrenta um dilema entre manter sua saúde fiscal ou conter o repasse do aumento aos transportadores de mercadorias – os caminhoneiros – o que se traduziria em choque inflacionário no frete e na cesta básica.

Na semana passada, o governo decidiu interferir: suspendeu a cobrança dos tributos PIS e Cofins que incidem sobre o diesel. Para compensar a perda de arrecadação, da ordem de 30 bilhões de reais, aumentou os impostos sobre a exportação de petróleo.

Caso a guerra se prolongue, no entanto, a tentativa de segurar preços internamente pode gerar um rombo financeiro insustentável – enquanto o repasse integral dos custos tende a desestabilizar a economia doméstica e aumentar a pressão social, em um ano de eleições presidenciais.

Estagflação?

No cenário mais grave, a economia global pode enfrentar um período de estagflação persistente: uma situação em que o baixo crescimento se soma a uma alta de preços. Essa alta não poderia ser contida pela ferramenta tradicional do aumento de juros – justamente porque o ritmo da atividade econômica já se reduziu. Sim, pode acontecer.

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