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POLíTICA

Um clima pesado na política ambiental

Brasil pode liderar um esforço planetário pelo meio ambiente, mas precisa superar suas próprias ambiguidades

Há 12 dias • por Fernando Gabeira
Um clima pesado na política ambiental
Debates na COP 30: dificuldade de chegar a consensos. Foto: Antônio Scorza/COP 30
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4:16

Dizem os românticos que os sonhos sonhados juntos acabam se realizando. Não foi bem assim com o Acordo de Paris. O combinado é evitar um aumento de temperatura de 1,5 grau até 2050 e de 2 graus até o fim do século. Já estamos, praticamente, nos 1,5 grau de aumento em relação aos níveis pré-industriais, e as condições geopolíticas não são favoráveis.

As guerras na Ucrânia e no Irã mergulharam a Europa na insegurança energética. Projetos contando com o petróleo e o gás russos tornaram-se problemáticos, e saídas mais poluentes, como o car­vão, voltaram à pauta, assim como as usinas térmicas.

Outro movimento geopolítico de grande repercussão foi a segunda vi­tória de Donald Trump. Ele não apenas retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, mas questionou profundamente a OTAN. O resultado acabou repercutin­do no orçamento dos países europeus, que elevaram seus gastos militares para cinco por cento.

Tudo isso repercute na política am­biental de um continente que pretendia fazer grandes esforços na transição ecológica e se dispunha a financiar países mais pobres a se adaptarem às mudanças climáticas.

Brasil na liderança

Por ironia da sorte, nesse momen­to difícil o Brasil se colocou como uma liderança no esforço planetário. As possibilidades de ocupar esse espaço sempre existiram por causa de nossas riquezas naturais.

Mas foi no discurso de Sharm el­-Sheikh que Lula, antes mesmo de sua posse, anunciou que o Brasil rompia com o negacionismo de Bolsonaro e iria participar intensamente dos esfor­ços planetários para combater as mu­danças climáticas, proteger a floresta amazônica e trabalhar na adaptação dos países às novas circunstâncias.

Foi esse contexto que nos trouxe a COP 30, realizada em Belém. Como chegamos um pouco atrasados no jogo, era preciso recuperar o terreno perdido.

Acontece que reuniões desse tipo, reunindo 194 países, já estavam dan­do sinal de cansaço. São muitos atores para se chegar a um consenso. No livro A Próxima Onda, Mustafa Suleyman, criador da DeepMind, pioneira em IA, fala de sua experiência na COP 15, rea­lizada em 2009, em Copenhague, mos­trando que mesmo entre as ONGs era impossível obter grandes consensos. Ele desistiu e foi buscar outras formas de contribuir.

Ambiguidades

O Brasil percebeu isso e, na primeira carta lançada pelo presidente da COP 30, embaixador André Corrêa do Lago, ele admite a dificuldade de consensos e afirma também a importância de acor­dos regionais, experiências que não de­pendem da aprovação de todo mundo. Ele cita como exemplo o Fundo Flores­tas Tropicais para Sempre. A iniciativa brasileira não empolgou a todos, mas já tem financiadores e deve beneficiar as florestas do Brasil, Indonésia e Congo.

Se não houver nenhuma nova re­viravolta na política nacional, o Brasil deve insistir nas suas metas: proteção das florestas e uma rápida transição energética. Não se trata de uma políti­ca sem ambiguidades. O desmatamen­to foi reduzido, mas aumentaram as queimadas. A promessa de energia limpa esbarra na decisão de explo­rar petróleo na Margem Equatorial da Amazônia.

As riquezas naturais e os recur­sos hídricos mais generosos fazem do Brasil um país potencialmente rico, sobretudo depois que os economistas deixaram de ver a natureza como uma externalidade e já a reconhecem como uma fonte de valor.

Em tese, o Brasil tem um futuro bri­lhante num mundo que se aproxima do desastre ambiental. Isso pode ser visto como algo interessante ou desanima­dor. As interpretações são livres.

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