Dizem os românticos que os sonhos sonhados juntos acabam se realizando. Não foi bem assim com o Acordo de Paris. O combinado é evitar um aumento de temperatura de 1,5 grau até 2050 e de 2 graus até o fim do século. Já estamos, praticamente, nos 1,5 grau de aumento em relação aos níveis pré-industriais, e as condições geopolíticas não são favoráveis.
As guerras na Ucrânia e no Irã mergulharam a Europa na insegurança energética. Projetos contando com o petróleo e o gás russos tornaram-se problemáticos, e saídas mais poluentes, como o carvão, voltaram à pauta, assim como as usinas térmicas.
Outro movimento geopolítico de grande repercussão foi a segunda vitória de Donald Trump. Ele não apenas retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, mas questionou profundamente a OTAN. O resultado acabou repercutindo no orçamento dos países europeus, que elevaram seus gastos militares para cinco por cento.
Tudo isso repercute na política ambiental de um continente que pretendia fazer grandes esforços na transição ecológica e se dispunha a financiar países mais pobres a se adaptarem às mudanças climáticas.
Brasil na liderança
Por ironia da sorte, nesse momento difícil o Brasil se colocou como uma liderança no esforço planetário. As possibilidades de ocupar esse espaço sempre existiram por causa de nossas riquezas naturais.
Mas foi no discurso de Sharm el-Sheikh que Lula, antes mesmo de sua posse, anunciou que o Brasil rompia com o negacionismo de Bolsonaro e iria participar intensamente dos esforços planetários para combater as mudanças climáticas, proteger a floresta amazônica e trabalhar na adaptação dos países às novas circunstâncias.
Foi esse contexto que nos trouxe a COP 30, realizada em Belém. Como chegamos um pouco atrasados no jogo, era preciso recuperar o terreno perdido.
Acontece que reuniões desse tipo, reunindo 194 países, já estavam dando sinal de cansaço. São muitos atores para se chegar a um consenso. No livro A Próxima Onda, Mustafa Suleyman, criador da DeepMind, pioneira em IA, fala de sua experiência na COP 15, realizada em 2009, em Copenhague, mostrando que mesmo entre as ONGs era impossível obter grandes consensos. Ele desistiu e foi buscar outras formas de contribuir.
Ambiguidades
O Brasil percebeu isso e, na primeira carta lançada pelo presidente da COP 30, embaixador André Corrêa do Lago, ele admite a dificuldade de consensos e afirma também a importância de acordos regionais, experiências que não dependem da aprovação de todo mundo. Ele cita como exemplo o Fundo Florestas Tropicais para Sempre. A iniciativa brasileira não empolgou a todos, mas já tem financiadores e deve beneficiar as florestas do Brasil, Indonésia e Congo.
Se não houver nenhuma nova reviravolta na política nacional, o Brasil deve insistir nas suas metas: proteção das florestas e uma rápida transição energética. Não se trata de uma política sem ambiguidades. O desmatamento foi reduzido, mas aumentaram as queimadas. A promessa de energia limpa esbarra na decisão de explorar petróleo na Margem Equatorial da Amazônia.
As riquezas naturais e os recursos hídricos mais generosos fazem do Brasil um país potencialmente rico, sobretudo depois que os economistas deixaram de ver a natureza como uma externalidade e já a reconhecem como uma fonte de valor.
Em tese, o Brasil tem um futuro brilhante num mundo que se aproxima do desastre ambiental. Isso pode ser visto como algo interessante ou desanimador. As interpretações são livres.