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ECONOMIA

A “cultura da floresta” que ainda falta criar

Apesar da abundância, produtos florestais seguem pouco valorizados na economia e subaproveitados no cotidiano brasileiro

Há 12 dias • por Miguel Lanna
A “cultura da floresta” que ainda falta criar
Floresta de eucaliptos. Foto: Divulgação
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8:32

O Brasil é um gigante florestal que ainda não desenvolveu uma verda­deira “cultura da floresta”. O país abriga cerca de 511 milhões de hec­tares de florestas naturais — algo próximo de 60% do território nacional — e ocu­pa a segunda posição mundial em área florestal, atrás apenas da Rússia. Em outras palavras: pou­cos países têm tanta floresta em termos absolu­tos e relativos quanto o Brasil. Para completar esta informação, se ainda considerar a diversida­de florestal, o Brasil se destaca ainda mais, pois é líder em número de espécies de árvores: cerca de 8.715 espécies, o que representa aproxima­damente 14% das 60.065 espécies arborícolas conhecidas no mundo. Ainda assim, produtos florestais seguem pouco valorizados na econo­mia doméstica e subaproveitados no cotidiano das cidades, do design à construção civil.

Paradoxo

Os números ajudam a explicar esse parado­xo. O Brasil dispõe de um parque de florestas plantadas que chegou a 9,7 milhões de hectares em 2023, majoritariamente de eucalipto (78,1%), segundo o IBGE. A indústria segue expandindo: o anuário de 2024 da Ibá indica que o país su­perou, pela primeira vez, a marca de 10 milhões de hectares cultivados. Mesmo assim, essa base serve sobretudo ao mercado externo. O Brasil é o maior exportador mundial de celulose, com algo entre 18 e 20 milhões de toneladas embar­cadas por ano; em 2024, as vendas externas se aproximaram de 20 milhões de toneladas, com a China como principal destino. Na prática, ex­portamos florestas na forma de fibra, enquanto a presença de madeira e derivados no consumo doméstico permanece baixa.

Quando se compara o que produzimos com o que consumimos, a distância cultural aparece. O consumo aparente de papel no Brasil gira em torno de 43 kg por pessoa/ano — abaixo da mé­dia global estimada em 55 kg e muito distante da América do Norte, onde o consumo per capita já esteve na casa de 215 kg. Ou seja: somos um campeão em fabricar e exportar, mas um país que usa pouco seus próprios produtos florestais no dia a dia.

Na construção civil, o contraste é ainda mais explícito. Nos Estados Unidos, a madeira domina as novas casas unifamiliares: 93% dos imóveis concluídos em 2023 eram de estrutura em ma­deira, participação que subiu a 94% em 2024. No Brasil, a tradição construtiva em madeira nunca se consolidou nacionalmente; estudos indicam difusão limitada do material, com exce­ções regionais como Santa Catarina, onde cerca de 28,2% das habitações são de madeira. O res­tante do país manteve preferência por alvenaria e concreto, mesmo tendo matéria-prima abun­dante e indústria florestal competitiva.

Madeira sem uso

Outro dado que revela o “apagão cultural” é a distribuição de valor entre os produtos florestais. Em 2023, a silvicultura — essencialmente madei­ra para uso industrial e energético — respondeu por R$ 31,7 bilhões, com as plantações chegan­do a 9,7 milhões de hectares. Já os produtos não madeireiros, que poderiam irrigar economias lo­cais e cadeias de valor diversas (como açaí e er­va-mate), somaram R$ 2,2 bilhões — relevantes, mas ainda marginais frente ao potencial amazô­nico e atlântico. O Brasil lidera inclusive a produ­ção de madeira industrial oriunda de plantações, com 131,9 milhões de m³/ano, segundo avalia­ção da FAO, mas segue sem traduzir essa escala em um repertório amplo de usos cotidianos, do mobiliário à habitação modular.

Globalmente, mais da metade das florestas do planeta se concentra em cinco países — Rús­sia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e China —, mas poucos têm uma combinação tão favorá­vel de vasta cobertura natural e produtividade de plantações quanto o Brasil. Apesar disso, a percepção pública e a política industrial ainda enxergam a floresta mais como fronteira de con­flito (ou como commodity para exportação) do que como base para inovação, valor agregado e bem-estar. A consequência é um país que derru­ba florestas em uma ponta e, na outra, importa tecnologia e soluções construtivas que poderiam ser desenvolvidas aqui com madeira engenhei­rada, design avançado e certificação rigorosa.

Economia florestal

Se o Brasil decidir construir uma cultura flo­restal — algo que países com menor cobertura já fizeram —, os caminhos estão à vista: ampliar o uso doméstico de madeira de manejo e de florestas plantadas certificadas, estimular habi­tação em madeira de baixa emissão, sofisticar o mobiliário e os acabamentos, diversificar ca­deias de produtos não madeireiros e reduzir o fosso entre o que produzimos e o que de fato incorporamos ao cotidiano. Com mais de meio bilhão de hectares de florestas e uma indústria que lidera em produtividade, falta menos árvo­re e mais imaginação — menos exportar fibra e mais agregar valor em casa.

A madeira, historicamente associada a mó­veis e construção artesanal, hoje ocupa um es­paço cada vez mais inovador em diversos seto­res. Com o avanço tecnológico, surgiram usos inéditos e surpreendentes: prédios de madeira engenheirada, como os arranha-céus de CLT na Noruega e nos Estados Unidos, demonstram que o material pode substituir concreto e aço com eficiência estrutural e menor pegada de carbo­no. Cientistas suecos já desenvolveram madeira transparente para substituir vidro em janelas e painéis solares, enquanto pesquisadores ja­poneses criaram madeira flexível que se dobra como papel sem perder resistência. No campo industrial, a nanocelulose derivada de fibras florestais abre caminho para embalagens sus­tentáveis que substituem plásticos, impressão 3D com textura de madeira real e até baterias e chips mais leves e biodegradáveis.

Moda e saúde

O setor da moda e da saúde também se re­inventa a partir das florestas. Tecidos como vis­cose, modal e lyocell, feitos a partir da polpa de madeira, já compõem coleções de grandes mar­cas internacionais, mostrando que a madeira pode vestir tanto quanto abrigar. Na biotecno­logia, a nanocelulose é aplicada em curativos, próteses e scaffolds para regeneração de tecidos humanos, unindo leveza, resistência e biocom­patibilidade. Em escala global, o que antes era visto como produto de baixa sofisticação, hoje se afirma como matéria-prima estratégica de uma economia verde e de alto valor agregado. O Brasil, com sua imensa cobertura florestal e li­derança na produção de celulose, tem condições únicas de transformar madeira em inovação — basta substituir a lógica de commodity pela visão de floresta como base para ciência, tecnologia e desenvolvimento sustentável.

Não é necessário ir para muito longe; nós po­demos ver cada vez mais brinquedos de plásti­cos enquanto os de madeira estão perdendo es­paços; instrumentos públicos utilizam cada vez mais aços, quando a madeira deveria ser uma solução mais “cultural”. Ser gigante em cobertu­ra florestal, mas não criar valor para o produto madeireiro é ignorar todo o seu potencial eco­nômico e desenvolvimento social. Inclusive, este cenário cria uma leitura dicotômica na política ambiental, em que a floresta é vista como algo intocável e distante da sociedade.

O Brasil precisa criar uma cultura florestal e isso significa aumentar a percepção de valor para os produtos florestais, para desenvolver uma econômica florestal robusta e de grande va­lor agregado, que seja um indutor de desenvol­vimento local, crescimento econômico de baixo carbono e sustentável.

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