O Brasil é um gigante florestal que ainda não desenvolveu uma verdadeira “cultura da floresta”. O país abriga cerca de 511 milhões de hectares de florestas naturais — algo próximo de 60% do território nacional — e ocupa a segunda posição mundial em área florestal, atrás apenas da Rússia. Em outras palavras: poucos países têm tanta floresta em termos absolutos e relativos quanto o Brasil. Para completar esta informação, se ainda considerar a diversidade florestal, o Brasil se destaca ainda mais, pois é líder em número de espécies de árvores: cerca de 8.715 espécies, o que representa aproximadamente 14% das 60.065 espécies arborícolas conhecidas no mundo. Ainda assim, produtos florestais seguem pouco valorizados na economia doméstica e subaproveitados no cotidiano das cidades, do design à construção civil.
Paradoxo
Os números ajudam a explicar esse paradoxo. O Brasil dispõe de um parque de florestas plantadas que chegou a 9,7 milhões de hectares em 2023, majoritariamente de eucalipto (78,1%), segundo o IBGE. A indústria segue expandindo: o anuário de 2024 da Ibá indica que o país superou, pela primeira vez, a marca de 10 milhões de hectares cultivados. Mesmo assim, essa base serve sobretudo ao mercado externo. O Brasil é o maior exportador mundial de celulose, com algo entre 18 e 20 milhões de toneladas embarcadas por ano; em 2024, as vendas externas se aproximaram de 20 milhões de toneladas, com a China como principal destino. Na prática, exportamos florestas na forma de fibra, enquanto a presença de madeira e derivados no consumo doméstico permanece baixa.
Quando se compara o que produzimos com o que consumimos, a distância cultural aparece. O consumo aparente de papel no Brasil gira em torno de 43 kg por pessoa/ano — abaixo da média global estimada em 55 kg e muito distante da América do Norte, onde o consumo per capita já esteve na casa de 215 kg. Ou seja: somos um campeão em fabricar e exportar, mas um país que usa pouco seus próprios produtos florestais no dia a dia.
Na construção civil, o contraste é ainda mais explícito. Nos Estados Unidos, a madeira domina as novas casas unifamiliares: 93% dos imóveis concluídos em 2023 eram de estrutura em madeira, participação que subiu a 94% em 2024. No Brasil, a tradição construtiva em madeira nunca se consolidou nacionalmente; estudos indicam difusão limitada do material, com exceções regionais como Santa Catarina, onde cerca de 28,2% das habitações são de madeira. O restante do país manteve preferência por alvenaria e concreto, mesmo tendo matéria-prima abundante e indústria florestal competitiva.
Madeira sem uso
Outro dado que revela o “apagão cultural” é a distribuição de valor entre os produtos florestais. Em 2023, a silvicultura — essencialmente madeira para uso industrial e energético — respondeu por R$ 31,7 bilhões, com as plantações chegando a 9,7 milhões de hectares. Já os produtos não madeireiros, que poderiam irrigar economias locais e cadeias de valor diversas (como açaí e erva-mate), somaram R$ 2,2 bilhões — relevantes, mas ainda marginais frente ao potencial amazônico e atlântico. O Brasil lidera inclusive a produção de madeira industrial oriunda de plantações, com 131,9 milhões de m³/ano, segundo avaliação da FAO, mas segue sem traduzir essa escala em um repertório amplo de usos cotidianos, do mobiliário à habitação modular.
Globalmente, mais da metade das florestas do planeta se concentra em cinco países — Rússia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e China —, mas poucos têm uma combinação tão favorável de vasta cobertura natural e produtividade de plantações quanto o Brasil. Apesar disso, a percepção pública e a política industrial ainda enxergam a floresta mais como fronteira de conflito (ou como commodity para exportação) do que como base para inovação, valor agregado e bem-estar. A consequência é um país que derruba florestas em uma ponta e, na outra, importa tecnologia e soluções construtivas que poderiam ser desenvolvidas aqui com madeira engenheirada, design avançado e certificação rigorosa.
Economia florestal
Se o Brasil decidir construir uma cultura florestal — algo que países com menor cobertura já fizeram —, os caminhos estão à vista: ampliar o uso doméstico de madeira de manejo e de florestas plantadas certificadas, estimular habitação em madeira de baixa emissão, sofisticar o mobiliário e os acabamentos, diversificar cadeias de produtos não madeireiros e reduzir o fosso entre o que produzimos e o que de fato incorporamos ao cotidiano. Com mais de meio bilhão de hectares de florestas e uma indústria que lidera em produtividade, falta menos árvore e mais imaginação — menos exportar fibra e mais agregar valor em casa.
A madeira, historicamente associada a móveis e construção artesanal, hoje ocupa um espaço cada vez mais inovador em diversos setores. Com o avanço tecnológico, surgiram usos inéditos e surpreendentes: prédios de madeira engenheirada, como os arranha-céus de CLT na Noruega e nos Estados Unidos, demonstram que o material pode substituir concreto e aço com eficiência estrutural e menor pegada de carbono. Cientistas suecos já desenvolveram madeira transparente para substituir vidro em janelas e painéis solares, enquanto pesquisadores japoneses criaram madeira flexível que se dobra como papel sem perder resistência. No campo industrial, a nanocelulose derivada de fibras florestais abre caminho para embalagens sustentáveis que substituem plásticos, impressão 3D com textura de madeira real e até baterias e chips mais leves e biodegradáveis.
Moda e saúde
O setor da moda e da saúde também se reinventa a partir das florestas. Tecidos como viscose, modal e lyocell, feitos a partir da polpa de madeira, já compõem coleções de grandes marcas internacionais, mostrando que a madeira pode vestir tanto quanto abrigar. Na biotecnologia, a nanocelulose é aplicada em curativos, próteses e scaffolds para regeneração de tecidos humanos, unindo leveza, resistência e biocompatibilidade. Em escala global, o que antes era visto como produto de baixa sofisticação, hoje se afirma como matéria-prima estratégica de uma economia verde e de alto valor agregado. O Brasil, com sua imensa cobertura florestal e liderança na produção de celulose, tem condições únicas de transformar madeira em inovação — basta substituir a lógica de commodity pela visão de floresta como base para ciência, tecnologia e desenvolvimento sustentável.
Não é necessário ir para muito longe; nós podemos ver cada vez mais brinquedos de plásticos enquanto os de madeira estão perdendo espaços; instrumentos públicos utilizam cada vez mais aços, quando a madeira deveria ser uma solução mais “cultural”. Ser gigante em cobertura florestal, mas não criar valor para o produto madeireiro é ignorar todo o seu potencial econômico e desenvolvimento social. Inclusive, este cenário cria uma leitura dicotômica na política ambiental, em que a floresta é vista como algo intocável e distante da sociedade.
O Brasil precisa criar uma cultura florestal e isso significa aumentar a percepção de valor para os produtos florestais, para desenvolver uma econômica florestal robusta e de grande valor agregado, que seja um indutor de desenvolvimento local, crescimento econômico de baixo carbono e sustentável.