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CULTURA

Onde o vinho e a sustentabilidade se encontram?

O que os debates sobre clima, meio ambiente e transição energética têm a ver com o vinho? Quando o clima muda, o vinho também muda

Há 12 dias • por Karene Vilela
Onde o vinho e a sustentabilidade se encontram?
Tanques de fermentação da Treasury Wine Estates: energia renovável e economia de água para buscar a sustentabilidade. Foto: Divulgação
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8:23

O que os debates sobre clima, meio ambiente e transição energética têm a ver com o vinho?  A resposta é simples. Quando o clima muda, o vinho também muda. E muda muito. Ondas de calor, geadas tardias, chuvas fora de época, secas prolongadas, granizo e incêndios afetam diretamente a videira e transformam profunda­mente os estilos de vinhos. A maturação acelera, o teor alcoólico sobe, a acidez cai, as identidades regionais se deslocam e, em alguns casos, regiões vinícolas inteiras precisam se reinventar.

Para os mais céticos, basta lembrar que regiões antes frias, como o Reino Unido, a Suécia, a Noruega e o norte do Canadá, começam a produzir vinhos de qualidade. Mas não será o avanço do cultivo nessas áreas que compensará o impacto global. Em 2024, vivemos o segundo ano consecutivo de menor produção mundial desde 1961. Foram 226 milhões de hectolitros, uma queda de 5% em re­lação a 2023. Ou seja, quando o mundo se reúne para discutir o clima, o vinho também pode estar no centro do debate.

Não basta ser orgânico

Na cabeça do consumidor médio, a forma de “ajudar” o planeta no universo do vinho costuma começar pela escolha de um rótulo orgânico. Mas você sabe, de fato, o que significa um vinho orgâ­nico? E, mais importante, será que ele é sempre a melhor solução?

A ascensão da consciência ambiental fez com que termos como orgânico, biodinâmico e natu­ral ganhassem mais espaço. Só que, como quase tudo no mundo do vinho, as respostas são mais complexas do que parecem. O vinho orgânico é produzido sem pesticidas, herbicidas ou fertili­zantes sintéticos, o que representa um avanço valioso em muitas regiões. No entanto, em áreas muito úmidas, controlar doenças sem o uso de produtos químicos exige intervenções mais inten­sas e um uso consideravelmente maior de cobre. O cobre, embora natural, é tóxico para o solo a longo prazo. Nesse ponto, o discurso de preser­vação frequentemente se distancia da prática.

Biodinâmicos e naturais

O biodinâmico, frequentemente confundido com o orgânico, segue a filosofia de Rudolf Stei­ner e vê os vinhedos como organismos vivos. Uti­liza preparados naturais, ciclos lunares e práticas regenerativas. É um método adotado por grandes ícones mundiais, como Romanée-Conti e Cristal (Louis Roederer). Embora mais holístico, também desperta controvérsias — e isso inclui o fato de não necessariamente reduzir o impacto ambien­tal, já que exige mais mão de obra, mais inter­venções manuais e, muitas vezes, uma presença muito maior no vinhedo ao longo de todo o ciclo.

Já o vinho natural é aquele de mínima inter­venção. Fermenta com leveduras indígenas, rece­be pouco ou nenhum sulfito e adota uma vinifica­ção mais tradicional. O problema é a ausência de um padrão internacional. A França avançou com o selo Vin Méthode Nature, mas, no restante do mundo, ainda há grande variabilidade na quali­66 67 dade, na segurança e na consistência. Há vinhos naturais extraordinários e outros bastante pro­blemáticos e, sem padrão, fica difícil garantir que a produção na viticultura gere menos impacto no meio ambiente.

É aqui que entra uma pergunta incômoda, porém necessária: os vinhos orgânicos são real­mente sustentáveis? O setor, como um todo, pre­cisa abandonar a visão romântica e adotar uma abordagem crítica. Adrian Bridge, CEO da Taylor’s e uma das vozes mais técnicas sobre clima no vi­nho, costuma repetir que a pegada de carbono do orgânico pode ser significativamente maior. Quando a produtividade cai, a conta ambiental sobe. Mais área, mais energia, mais transporte.

Na Nova Zelândia, o enólo­go Dave Sutton, da Te Kano, retirou parte de seu vinhedo da certificação orgânica porque o solo estava se degradando. Estudos internacionais alertam para os impactos cumulativos do cobre na água e na saúde dos trabalhadores. E muitos produtores europeus admitem que, em anos de­safiadores, o manejo orgânico pode ser ambien­talmente mais prejudicial do que o manejo inte­grado bem executado.

Um conjunto de decisões técnicas

Sustentabilidade, portanto, não é um selo único. É um conjunto de decisões técnicas. Mas há consenso na comunidade científica e climáti­ca do vinho: a maior revolução do setor não está apenas no vinhedo. Está na garrafa. Isso mesmo. Um dos componentes mais poluentes da cadeia do vinho não é o cultivo, e sim o peso da garrafa. Aquelas garrafas pesadas que muitos consumido­res ainda associam à qualidade são, na verdade, um enorme obstáculo ambiental. Produzi-las con­some mais energia, transportá-las requer mais combustível e, ao longo de toda a cadeia, elas ge­ram mais emissões.

A boa notícia é que várias vinícolas sérias já estão migrando para garrafas leves, com peso entre 390 e 420 gramas. Outras experimentam alumínio reciclável, bag-in-box de alta qualidade, engarrafamento no local, garrafas reutilizáveis e diversas estratégias inteligentes para reduzir o impacto sem comprometer a qualidade do vinho. Se você ainda acredita que garrafa pesada signifi­ca vinho superior, saiba que esse é um dos mitos que mais custam ao planeta.

A escolha do consumidor

E o que podemos fazer como consumidores? Antes de tudo, entender que sustentabilidade não é binária. O vinho orgânico pode ser uma excelente escolha, dependendo da região, do cli­ma e da filosofia do produtor, mas está longe de ser a única opção. Podemos optar por empresas que medem impacto, que praticam regeneração do solo, que investem em energia renovável e que repensam sua logística. Podemos considerar o peso da garrafa, o tipo de embalagem, as dis­tâncias percorridas. E, principalmente, podemos fazer perguntas. Consumidores que questionam transformam indústrias inteiras.

Se você deseja estar mais próximo das discus­sões estruturais sobre sustentabilidade no setor do vinho, vale conhecer o Porto Protocol. Ainda pouco conhecido pelo grande público, ele é uma referência global no trade. Criado a partir das conferências Climate Change Leadership, o Porto Protocol tornou-se uma das ONGs mais relevan­tes em clima no universo do vinho. Sua missão é clara: compartilhar experiências reais, medir im­pacto, aprender de forma colaborativa e acelerar a transição climática da cadeia. Empresas, produ­tores e instituições assinam uma Carta de Princí­pios que envolve compromissos concretos de mi­tigação e adaptação. Não se trata de propaganda, mas de uma plataforma de cooperação baseada em evidências, dados e ações verificáveis.

E, no fundo, tudo isso importa porque nos aju­da a entender uma verdade simples: sustentabili­dade no vinho não é moda, não é etiqueta e não é discurso. É responsabilidade.

Se você chegou até aqui, já fiz metade do meu trabalho. Se, ao terminar este texto, você entende que um bom vinho não tem absolutamente ne­nhuma relação com garrafa pesada, demos um passo importante. A sustentabilidade do vinho é complexa, repleta de nuances e oportunidades. É a chance de unir tradição, inovação e consciência. O planeta agradece. As próximas gerações agra­decem. E o vinho, claro, agradece também.

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