A palavra “infobesidade” (“infobesity”, em inglês) ainda não ganhou uma definição nos dicionários, mas é fácil entender o seu sentido. Ela aponta para o consumo excessivo de informações – que começa a ser considerado um problema de saúde pública por muitos especialistas, tanto quanto o consumo excessivo de calorias.
A exposição “Fotos que Nunca Serão Postadas”, em cartaz no Instituto ViaFoto, em São Paulo, pretende abordar questões contemporâneas como essa. Se os telefones celulares escravizam seus donos, eles precisam ser trancados em um armário, antes da entrada. “Queremos que as pessoas estejam presentes de fato na hora de ver as fotos”, afirma Luciana Brafman, uma das curadoras.
Cortinas pretas
Outro recurso é usado para despertar a atenção dos visitantes. Se a sobrecarga de informação que aflige as pessoas resulta, em boa medida, de imagens que se exibem sem pedir licença, a exposição esconde cada uma de suas 38 obras com uma cortina preta. Cabe ao espectador decidir se vai ou não puxar o cordão que levanta o pano e revela a foto. Esse gesto também controla o foco de iluminação, que só atinge o brilho máximo se o cordão for puxado até o final. “Queríamos devolver o poder de escolha ao indivíduo”, diz Marcello Dantas, o segundo curador. “Nas redes sociais, o filtro daquilo que podemos ver deixou até de ser humano.”
Antes de decidir se quer ou não ver uma foto, o espectador pode ler um texto que a descreve. Esse é um terceiro artifício criado pelos curadores, desta vez, com alguma malícia. As descrições foram feitas por inteligência artificial e nem sempre identificam o que se vê com precisão. A flor dentro de um cálice da IA pode ser algo de natureza completamente diferente. Assim, o descolamento entre linguagem e imagem também dá o que pensar.
Tabus
Mas e as fotos, propriamente ditas? Elas foram feitas por fotógrafos e artistas plásticos profissionais, como Bob Wolfenson, Claudio Edinger e Nuno Ramos, mas também por personalidades de outras áreas, como as atrizes Mariana Ximenes e Natallia Rodrigues. Algumas são plácidas. Mas muitas lidam com temas difíceis, como violência e os tabus do sexo. “A exposição é sobre tudo que faz parte da realidade”, diz Dantas. “A gente não quer uma vida desprovida do real.” A mostra tem indicação etária – para maiores de 16 anos.
“Fotos que Nunca Serão Postadas” é o primeiro hit do Instituto ViaFoto, que abriu as portas no final de 2025. O espaço foi idealizado pelo empresário David Feffer, presidente do conselho de administração da Suzano e apaixonado por fotografia. Além de exposições, ele pretende abrigar cursos, debates e ações educativas. Seu diferencial em relação a outras entidades brasileiras que também lidam com o tema é o desejo de estar próximo da fotografia “viva” e presente.
Feffer tirou do próprio bolso o dinheiro necessário para garantir o funcionamento do instituto pelos dois primeiros anos. Agora, procura estruturar um fundo patrimonial de 15 milhões de dólares, que tornaria o ViaFoto sustentável a longo prazo.
Fundos patrimoniais
Um estudo recente, produzido pela Fundação Rockfeller, pela consultoria Dalberg e pela Resource Foundation, mostra que a informalidade ainda é a marca da filantropia cultural e social na América Latina. Isso limita o volume de doações para causas desse tipo, que representam algo entre 0,2% e 0,3% do PIB da região – metade do que se observa em outras economias emergentes, como as da Indonésia e da África do Sul.
Fundos patrimoniais – conhecidos como “endowments”, em inglês – são uma forma bem testada de organizar a filantropia. Mas seu arcabouço jurídico é recente no Brasil. Foram criados pela Lei 13.800, de 2019. A boa notícia é que o modelo parece estar se consolidando. O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) acompanha a evolução desse mercado. A primeira edição do seu Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais, lançada em 2021, compilou informações de 40 instituições, com 12 bilhões de reais de patrimônio líquido. A edição mais recente, referente a 2024, avaliou 92 entidades, com patrimônio somado de 139 bilhões de reais. O instituto ViaFoto se soma a esse movimento positivo. E isso, como as imagens da exposição “Fotos que Nunca Serão Postadas”, também dá o que pensar.
