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MUNDO

Mirar no Irã para atingir a China

Assim como na Venezuela, objetivo dos EUA não é mudar o regime dos aiatolás, mas tirar o país da órbita dos chineses

Há 12 dias • por Da Redação
Mirar no Irã para atingir a China
Caça F-35C Lightning II transportado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, na operação militar americana Epic Fury, contra o Irã. Foto: U.S. Navy
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No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã. Segundo estimativas de sites especializados, a força mobilizada pelos dois países foi três ou quatro vezes superior à empregada no bombardeio anterior contra o regime dos aiatolás, realizado em junho de 2025. Os americanos mobilizaram dois grupos de porta-aviões completos, dezenas de aeronaves, navios lançadores de mísseis e moderníssimos aviões de bombardeios.

O Irã, por sua vez, não havia tido tempo de reconstruir suas defesas. Além disso, vivia o rescaldo de uma temporada de manifestações domésticas duramente reprimidas, que matou cerca de 43 mil pessoas. Com defesas fragilizadas e instabilidade interna, o governo islâmico já estava moribundo antes mesmo do ataque de alta precisão que matou o aiatolá Ali Khamenei.

Líderes eliminados

Abrir este artigo com esse contraste serve para mostrar que dificilmente o objetivo desse conflito se resume a “arrancar as garras e dentes” do Irã, que já vinha em situação difícil. A contundência do movimento só pode ser entendida em sua completude se olharmos o jogo no qual EUA e China são atores principais.

É necessário voltar à operação militar americana que “extraiu” da Venezuela o ditador Nicolas Maduro, hoje preso e esquecido em Nova York. A semelhança do modus operandi – eliminar a cabeça do regime político – sugere que, assim como fez no país caribenho, Donald Trump colocou a atual elite de Teerã sob ameaça existencial para atraí-la à mesa de negociação em situação miserável.

Se esse raciocínio estiver correto, Trump vai propor suspender os ataques se aqueles que assumiram o lugar de Khamenei aceitarem deixar a órbita da Rússia e da China, migrando para a zona de influência americana.

Sob a ótica do EUA, essa operação não busca necessariamente uma mudança de regime, assim como não o fez na Venezuela. Se a mudança vier, trabalha-se com o novo cenário. Mas o objetivo real é fragilizar os chineses, retirando o Irã da sua órbita.

Petróleo

Somados, Irã e Venezuela fornecem 20% do petróleo importado pela China, que usa uma frota de “navios fantasmas” para comprar e transportar o insumo a preços muito mais baixos que os praticados no mercado internacional. Ao atingir os dois países em dois meses, os EUA interrompem esse fluxo e obrigam a China a pagar mais caro pelo combustível, infligindo pesado custo à sua economia.

E o Brasil? A preocupação econômica imediata para o Brasil é o choque de preços de petróleo que pode vir da guerra, especialmente se ela se alongar demais, e seus efeitos sobre a inflação. A guerra do Irã pode estar, para Lula, como a guerra da Ucrânia esteve para Jair Bolsonaro em 2022: um conflito armado que traz incertezas para a economia num ano eleitoral.

Por ora, é impossível dizer se isso vai acontecer. Mas já dá para extrair um alerta importante dos movimentos realizados nos últimos meses. Mais do que nunca, está claro que os EUA tratam a disputa com a China como questão existencial. A forma assertiva com que têm ignorado princípios de direito internacional para preservar seus interesses mostra a prioridade que dão ao tema.

Dilemas para o Brasil

O Brasil que, sob Lula, flerta abertamente com uma ordem global alternativa, baseada em um multilateralismo liderado pela China, deve ter cautela. Venezuela, Irã e Cuba são países com os quais o governo petista se mostra solidário e mantém laços de amizade. O país gostaria de ter liberdade total para adotar uma estratégia pendular, obtendo vantagens ora da China, ora dos EUA. Os episódios de intervenção militar americana mostram que o espaço de movimentação é muito menor do que Lula gostaria.

Um grande exercício de revisão e planejamento da política externa deve ser feito no Palácio do Planalto, partindo do fato de que não se foge da geografia. Estamos da zona de influência americana e, como diz o ditado, quando elefantes brigam, quem sofre é a grama.

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